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segunda-feira, 21 de maio de 2012

UM SÁBIO CHAMADO TEMPO

Era uma vez um sábio chamado Tempo. Tempo era tão culto e erudito que, nos quatro cantos do mundo, era conhecido como o Senhor da Razão. Tempo não falhava. E também não faltava. Não falhava porque, mais dia, menos dia, as coisas confiadas a ele sempre acabavam por acontecer. E não faltava porque nunca se recusou a estar à disposição das coisas e das pessoas. Entretanto, apesar de sua notável perfeição e sapiência, Tempo nunca foi um ente muito bem compreendido e parte disso sempre se deveu à dificuldade de aceitar que, contra ele, não existem argumentos ou ações. Tempo é soberano e é praticamente intransponível.
Em um certo sentido, Tempo tem sido acusado de ser cruel e implacável. Através de seus olhos, é possível observar-se a beleza, a saúde e a vida se esvaindo até seu completo desaparecimento. E não há ninguém, nem ciência e nem religião, capaz de deter esta força. Questionado sobre tais angústias humanas, Tempo tem se limitado a responder que as coisas simplesmente são assim. E são assim porque nada no mundo é estático e porque o fluxo da vida segue em uma direção de mão única. Cada célula dos nossos corpos encontra-se em processo de envelhecimento desde ao menos o dia do nosso nascimento. E, se é assustador pensar assim, serve de alento o fato de que esta é uma verdade fisiológica universal, comum a todos os seres vivos.
Tempo tem explicado que, na vida, as coisas tem um começo, um meio e um fim e que acontecem como têm que acontecer, por razões muito intrincadas e complexas relacionadas com esta enorme teia de interações que rege o universo. Sendo assim, por mais que alguém se esforce, é impossível apreendê-las e retê-las.
Mas Tempo tem também um lado muito benevolente. É por meio de sua ação que a maior parte do sofrimento humano transforma-se em mera lembrança e é pela graça de suas mãos que uma enorme gama de problemas acaba se resolvendo de uma forma bastante natural e quase milagrosa. Tempo é curativo, eficiente e aliviador. Basta ter paciência, o que, entretanto, não parece ser muito fácil.
Em meio a dores e inquietações, o homem tem pressa em entender o que com ele se passa. Quer saber porque algo aconteceu ou deixou de acontecer, principalmente quando o resultado esperado não é atingido. Quer saber porque caiu, perdeu, fracassou, faliu, foi traído, foi trocado, foi ofendido, foi magoado, foi agredido, foi desrespeitado. Ingenuamente, procura conselhos e respostas imediatas. Ele ignora que a compreensão exata dos acontecimentos depende do Tempo. Após repetidas experiências, deveria ter a humildade de aceitar este postulado universal e simplesmente saber esperar.
Tempo também foi indagado sobre estas questões e sobre o funcionamento deste mecanismo. Ele ilustrou da seguinte maneira: "Imagine que você estivesse observando um enorme tabuleiro. Você concorda que seria possível, ao observador, explicar e prever as interações, os encontros e as quedas de cada um dos pequenos seres que caminham sobre a superfície? Ter esta visão é como conhecer o passado, o presente e o futuro".
Nós, seres humanos mortais, não possuímos este dom, pois fazemos parte deste tabuleiro. Nossa visão é muito parcial e limitada e não conseguimos olhar em todas as direções com o alcance necessário. Somos tão minúsculos em meio a aquela teia que nunca chegaremos a compreender todas as causas, consequências e condições.
Há, porém, a possibilidade de algumas respostas. Aguardando o necessário, poderemos olhar para trás e então, já com um certo distanciamento, conseguiremos ver com alguma clareza os caminhos percorridos até um determinado resultado. Esta é a bondade do Tempo. Se ele não nos confere a dádiva de antever o futuro, ao menos nos concede meios de compreender o passado e, consequentemente, o presente.
Se hoje você tem questões não respondidas, aguarde mais um pouco. Seja gentil com você mesma e com o Tempo. Não se agrida, não se torture, não se esgote. As respostas possíveis virão quando você tiver caminhado mais além e quando houver subido a montanha que lhe fará enxergar melhor os rastros da sua existência. E quando você tiver alcançado o topo de sua fé e da sua alegria, o Tempo, em sua ação que nunca falha, trará a cura e erguerá, com suas asas, o véu de muitos mistérios.

(Big Ben, Londres, UK - foto extraída de http://www.edwud.com/)

quinta-feira, 26 de abril de 2012

AS RAZÕES DE UMA ROSA

Em exatos trinta dias, partirei para uma jornada inteiramente nova e desafiadora. Fui aprovada para cursar o Mestrado em "Comparative Law", que terá lugar na Universidade de Samford (USA) e na Universidade de Cambridge (UK). Embora estas últimas semanas tenham sido corridíssimas, já que agreguei à minha rotina muitas aulas de inglês jurídico e estudos direcionadas, posso dizer que estou longe de um estado de exaustão. E isso porque estou muito animada com este mais novo projeto de vida. Vou fazer o chamado "Programa de Verão", de modo que condensarei todos os créditos do Mestrado em quatro meses (junho/ julho de 2012 e 2013), em sistema de regime praticamente integral de aulas. E como o escopo do curso é o estudo comparativo da normatização constitucional americana e europeia, passarei os meses de junho nos Estados Unidos e os meses de julho no Reino Unido.
A sede da Universidade de Samford fica no Estado do Alabama, mais precisamente em Birmingham, que, por sua vez, fica a 137 km da Capital, Montgomery. Quando recebi a brochura do curso, percebi que não tinha uma noção muito clara de onde ficava este Estado e fiquei pensando se seria mesmo uma boa opção concorrer a uma vaga. Constatando, porém, que metade do curso seria em Cambridge, considerei que já valeria a pena tentar e, assim, acabei fazendo as provas de admissão e sendo aprovada em terceiro lugar.
Comecei, então, meu específico preparo, que incluiu uma pesquisa preliminar sobre o tema da minha tese futura e que certamente abrangerá alguns estudos mais aprofundados sobre os direitos fundamentais do ser humano. E, assim, a par do meu trabalho cotidiano e de todas as minhas demais atividades, venho me dedicando também a esta viagem.
Três dias atrás, após cerca de três horas de concentrada pesquisa sobre o tema do trabalho, resolvi fazer uma pausa e comecei a pinçar algumas informações sobre o meu destino. Logicamente, fui primeiro ao mapa dos Estados Unidos e, depois, passei a aferir aqueles óbvios dados concernentes à demografia, geografia, economia e história. E, em meio à clássica navegação pelos tópicos da Wikipedia, tive o prazer incomensurável de deparar-me com a Sra. Rosa Louise McCauleya, conhecida como Rosa Parks, nascida na Capital do Alabama em fevereiro de 1913 e falecida em Detroit em outubro de 1995. O que tornou esta mulher tão conhecida foi um fato ocorrido dentro de um ônibus no dia 1o. de dezembro de 1955, quando ela se recusou a ceder seu lugar a um passageiro branco que seguia no interior do coletivo. Rosa foi presa e acabou sendo liberada mediante o pagamento de fiança. E o mundo mudou a partir de então. A comunidade negra local indignou-se com a prisão da costureira e um jovem e desconhecido pastor protestante foi convidado a liderar um boicote ao transporte coletivo pelo período de 24 horas. Nem Rosa e nem seu colega pastor, que atendia pelo nome de Martin Luther King Jr., imaginaram que esta singela ação perduraria não por um, mas, sim por exatos 381 dias, e que desencadearia o mais significativo movimento anti-segregação racial já visto na América.
Três anos antes de sua morte, Rosa deu uma entrevista na qual justificou sua atitude dizendo que, naquele dia, seus pés estavam doendo. Ela acrescentou também que, a despeito da legislação vigente na época, simplesmente sentiu que tinha o direito de permanecer ali e de ser tratada como qualquer outro passageiro.  De uma certa forma, Rosa estava em sintonia com o que seria dito em Washington, em 1963, quando o pastor, ao tratar da união e da coexistência harmoniosa entre negros e brancos no futuro, pronunciou a célebre frase que o tornou universalmente conhecido. 
Ao que parece, Rosa, oito anos antes, também já tinha o seu sonho, que, para ela, transformou-se em realidade sem que precisasse pegar em armas ou gritar em praça pública. Sua voz silenciosa foi além e suficiente a cessar uma tradição de desigualdade. Rosa nunca foi vaidosa e nunca se despojou de sua simplicidade, nem mesmo quando, já célebre, ainda atribuía a seu cansaço um ato que veio a mudar a história da humanidade. 
Se Rosa estivesse viva, eu levaria rosas a ela na minha chegada ao Alabama. Terei o máximo prazer, porém, de me esforçar em manter viva a sua memória e de homenageá-la por ocasião da apresentação de minha tese final. Rosa Parks é um nome a ser eternamente reverenciado para jamais ser esquecido. E para ser invocado a nós mesmas em todos os dias das nossas vidas. 

(Nike of Samothrace - Jasmine Hills - Montgomery, Alabama - foto extraída de http://davidrwetzelphotography.wordpress.com/)